Romper um ciclo de violência exige mais do que afastar a mulher de uma situação de agressão ou abuso. Em muitos casos, é preciso oferecer ferramentas para que a vítima possa reconstruir a própria vida, recuperar a autoestima, reorganizar a rotina e encontrar caminhos para garantir a própria sobrevivência. Nesse processo, a autonomia financeira pode ser um dos fatores fundamentais para que mulheres em situação de vulnerabilidade tenham condições de fazer escolhas e construir novos projetos de vida.
O Senac em Minas, que integra o Sistema Fecomércio MG, Sesc, Senac e Sindicatos Empresariais, através do Núcleo de Projetos Sociais, atua com iniciativas de educação profissional voltadas a diferentes públicos em situação de vulnerabilidade, associando qualificação a oportunidades de geração de renda e reconstrução de projetos de vida.
A dependência financeira ainda é uma das barreiras que podem manter mulheres em relacionamentos violentos. Em muitos casos, o agressor utiliza o controle sobre o dinheiro, o trabalho e o acesso à educação como instrumentos de dominação. Impedir que a mulher trabalhe, estude ou tenha autonomia para administrar seus próprios recursos significa também limitar suas possibilidades de romper com aquela realidade. Segundo o Instituto Patrícia Galvão, a dependência econômica é apontada como um dos principais fatores que dificultam a saída de mulheres de relações violentas, representada por 53% dos casos.
Mesmo quando consegue se afastar do agressor, a mulher pode enfrentar outros desafios. Há situações em que é necessário deixar a própria casa, afastar-se de familiares e da rede de convivência ou lidar com impactos emocionais como ansiedade, traumas e perda da autoestima. A violência também pode comprometer a capacidade de concentração, de tomar decisões e de planejar o futuro.
“Para uma mulher que passou por uma situação como essa, voltar a estudar e a trabalhar também é uma retomada de autonomia sobre a própria vida. Por isso, a qualificação precisa ser acompanhada da construção de uma rede de apoio, que dê as condições que essa mulher precisa para conseguir retomar sua trajetória”, explica Ana Roberta da Cruz, Especialista Técnica de Relações Institucionais do Senac em Minas e integrante do Núcleo de Projetos Sociais desde sua criação.
Ana Roberta ressalta que outro obstáculo é a vergonha. "Ao longo da atuação com projetos sociais, já acompanhamos situações em que mulheres demonstraram interesse em participar de cursos, mas não compareceram às aulas por medo de serem identificadas como vítimas de violência. O receio de serem julgadas ou estigmatizadas também pode afastá-las de oportunidades de formação", reforça.
Para a especialista, é nesse contexto que a educação profissional pode assumir um papel importante. "A qualificação não resolve, sozinha, as diferentes dimensões da violência, mas pode ampliar possibilidades profissionais e de geração de renda", defende Ana Roberta.
Exemplos
Lançado em 2025 pelo Sistema Fecomércio, Sesc e Senac, o Programa Fé Nelas foi criado para apoiar mulheres, desde as que se encontram em alguma situação de vulnerabilidade, microempreendedoras individuais - MEI, micro e pequenas empresas e empresas de pequeno porte, oferecendo inclusão, capacitação, conexões estratégicas e oportunidades de crescimento.
No Senac em Minas, essa atuação acontece por meio de diferentes projetos. O Projeto Oportunidades é uma parceria com a Defensoria Pública de Minas Gerais, o Instituto Por Elas e o Instituto Elo. Com ele, mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente financeira, recebem capacitações técnicas com foco em empreendimento.
O Projeto Laudelina, iniciado em 2025, é realizado em parceria com Casa Lilian do Ministério Público, Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Registro de Imóveis do Brasil - Seção Minas Gerais e Rede Accor. Voltada para mulheres vítimas de violência e em situação de vulnerabilidade social, a iniciativa começou com a oferta de cursos de camareira e tem perspectiva de ampliar as qualificações e chegar a outros municípios.
O Núcleo de Projetos Sociais possui outras iniciativas de qualificação que atendem ainda mulheres migrantes e refugiadas, mulheres trans e mulheres privadas de liberdade.
"Essas experiências mostram que existem diversos caminhos para a autonomia por meio da aprendizagem. Para algumas mulheres, pode representar a retomada do emprego formal; para outras, o empreendedorismo ou a descoberta de uma nova habilidade podem abrir novas possibilidades profissionais", complementa Ana Roberta.