O feijão, alimento presente diariamente na mesa dos brasileiros, ganha protagonismo em uma pesquisa inédita desenvolvida pelo Sistema Fecomércio MG, por meio do Senac. O estudo “O Futuro do Feijão na Cozinha Mineira” propõe uma reflexão profunda sobre a importância histórica, cultural, nutricional e gastronômica desta semente que ajudou a construir a identidade alimentar de Minas Gerais e que agora ressurge como símbolo de inovação e contemporaneidade na cozinha do estado.
Os resultados do estudo serão apresentados oficialmente durante o Congresso Nacional do Feijão (CONAF), no dia 27 de maio, às 13h, na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte. A apresentação integra a mesa “Primórdios da Cozinha Mineira”, em parceria com a Epamig e a Embrapa, marcando um significativo momento de valorização científica e cultural da culinária mineira.
Usos tradicionais x possibilidades futuras
A investigação reúne mais de 10 anos de estudos de campo realizados pelo programa “Primórdios da Cozinha Mineira”, consolidando um amplo levantamento sobre os usos tradicionais do feijão em diferentes territórios mineiros, especialmente nas comunidades quilombolas, onde permanece associado à ancestralidade, ao ritual, à coletividade e à preservação cultural.
Mais do que revisitar receitas afetivas, a pesquisa, conduzida pelos pesquisadores Vani Maria Fonseca Pedrosa, Sandra Ribeiro Souto e Marcos Pessoa Morais, investiga como os saberes tradicionais relacionados ao preparo do feijão revelam técnicas culinárias sofisticadas, muitas vezes, invisibilizadas no cotidiano contemporâneo. Preparações como tutu, tropeiro, feijoada e outras receitas tradicionais, aparecem no estudo não como práticas ultrapassadas, mas como expressões de uma cultura alimentar complexa, rica em conhecimento técnico, equilíbrio nutricional e identidade cultural.
“Durante muitos anos, o feijão foi visto apenas como alimento cotidiano, mas nossa pesquisa demonstra que ele possui um potencial muito maior dentro da própria cozinha mineira. O que identificamos, nos territórios pesquisados, especialmente nas comunidades tradicionais, é que existe um conhecimento técnico e cultural extremamente sofisticado e superior ao que conhecemos no uso diário, como o 'feijão com arroz', e isso conversa diretamente com temas atuais da gastronomia mundial, como sustentabilidade, identidade, saudabilidade, tradição e inovação”, destaca Vani Pedrosa.
Ao longo da investigação, os pesquisadores identificaram diferenças marcantes entre os usos tradicionais, nos quilombos mineiros, e as aplicações contemporâneas, em restaurantes e laboratórios gastronômicos. Enquanto nas comunidades tradicionais o feijão permanece ligado à memória e à sobrevivência coletiva, na cozinha contemporânea ele começa a assumir novas possibilidades estéticas e técnicas, aparecendo em preparações leves, refinadas e tecnicamente elaboradas, sem perder sua conexão com a tradição.
“Este trabalho procura mostrar que a cozinha mineira pulsa em todo o estado, e suas bases culturais profundas estão maduras para construir novas linguagens gastronômicas sem perder sua identidade. O feijão surge, nesse contexto, não apenas como memória alimentar, mas como ingrediente de enorme potência criativa para o futuro da gastronomia mineira”, completa Vani Pedrosa.
Conaf
Após a mesa de discussão, alunos do curso da Faculdade Senac de Gastronomia, orientados por docentes, apresentarão uma degustação especial, com receitas contemporâneas do feijão, reforçando sua potência criativa e gastronômica. público poderá experimentar pratos como o velouté de feijão branco com azeites mineiros e creme de queijo, o minissanduíche de feijão defumado e a terrina doce de feijão com chocolate.
A iniciativa fortalece a parceria entre Senac e Epamig, aproximando pesquisa acadêmica, cultura alimentar e desenvolvimento gastronômico. Mais do que um ingrediente cotidiano, o feijão ressurge, nesta pesquisa, como patrimônio cultural, elemento de identidade e protagonista de um novo capítulo da cozinha mineira.